fim de mundo com lan-house

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Pergunta premiada

Entre os muros da escola, de Laurent Cantet


Finalmente vi "Entre os muros da escola". A princípio, me pareceu um filme sobre a típica história de superação em que um professor consegue disciplinar e colocar alguma coisa na cabeça de um grupo de alunos desajustados. E os elementos todos desse clichê realmente estão lá. O esforçado professor Marin seria o mocinho, obstinado por tentar melhorar a relação com os estudantes, enquanto a maior parte dos outros professores parece desanimada ou pouco sensíveis às complexidades da relação aluno professor.

Há ainda os alunos inteligentes, os que aparentemente não querem nada com a vida, o encrequeiro que demonstra algum potencial - no caso Souleymane, que não consegue escrever um "autorretrato'', mas mostra interesse por algum rebuscamento e acaba substituindo o texto por uma exposição fotográfica.

E Marin está lá para compreendê-los, enxergar neles algo que os outros não viam e assim poder auxciliá-los a crescer. O jogo sedutor da superação está armado, mas não é assim que o filme prefere proceder. Se a intenção é levantar os problemas da educação na França, não será Marin, praticamente sozinho em sua paciência e obstinação ímpar, que irá solucioná-los.

Não que o longa não aponte caminhos. Marin, interpretado pelo ótimo François Bégaudeau, tenta se aproximar, trata os estudantes quase como iguais, ao mesmo tempo que algumas de suas atitudes demonstram o abismo enorme, cultural e hierárquico, que ainda o separa dos alunos. É exemplar a cena em que o professor reclama de um aluno que chamou os professores de babacas, mas o mesmo responde que ele não tem direito de reclamar, pois havia chamado uma das estudantes de ''vagabunda''. Marin, do alto de sua autoridade, diz que ''não é a mesma coisa'', o que, obviamente, não convence muito os alunos.

Com sua disposição para tentar incentivar e compreender os alunos, Marin é parte de uma possível solução, mas também dos problemas que marcam a relação entre alunos e professores, seja na França ou em qualquer lugar. O ápice dramático do filme, com o julgamento no Conselho de Disciplina se um aluno deve ou não ser expulso depois de desrespeitar o professor, em vez de fechar questão, traz ainda mais questionamentos. É ali que convergem todas as inquietações do filme: se expulso do colégio, o pai do garoto provavelmente irá mandá-lo de volta para Mali, seu país de origem.

E então, como proceder para julgar o garoto? Levar ou não em consideração o contexto familiar e as consequências da decisão do colégio na vida do garoto? Se a punição não é eficaz, nem os esforços de incentivar o potencial de seus alunos também, que saídas nós temos?

O frequente enquadramento de mãos em riste enquanto Miran ainda responde uma pergunta anterior parecem ser bem emblemáticos desse filme, e da necessidade da articulação das perguntas certas para achar as soluções adequadas. Elas são, como Entre os muros da escola, pelo menos um bom começo.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Lo mejor

Demorei a fechar minha lista dos 10 melhores filmes de 2009, mas aqui vai ela, sem ordem certa e com uma pequeno parágrafo de justificativa.

A bela junie
O retrato de um mundo vivo e pulsante dentro do tédio de uma sala de aula é uma verdadeira lição de como fazer um filme simples, mas cheio de vida. Honoré é um dos poucos cineastas que consegue não só contar uma história mas criar um mundo crível, que parece respirar para além de seu quadro. O doce amargo de se apaixonar na adolescência aqui parece mais real e não menos drástico.

A garota ideal
A boneca inflável mais expressiva da história do cinema e a forma desconcertante e não menos engraçada de contar a história de um homem que acredita que essa boneca tem vida foram a coisa mais emocionante e inteligente(o humor é uma forma sofisticada sua) que vi no cinema esse ano.

Sinédoque, Nova York
O risco de muitas boas idéias sufocarem um ótimo filme deixa de ser um risco e se torna aqui um tema. Como abarcar a realidade em uma obra de ficção? Charlie Kaufman propõe seu estilo megalomaníaco de jogos de espelho em fractal tanto como uma solução quanto problema. É arte pura e pura vida em incompletude.

Simplesmente feliz
Uma fábula moral bastante simples, mas extremamente humana e divertida. A história de Poppy, que não consegue parar de rir e fazer os outros rirem mergulha no patético sem deixar de lado a graça.

Abraços partidos
É sempre bom ver um Almodóvar. Seu filme sobre o próprio cinema como lugar de embalsamar e preservar os corpos/lembranças não é sua obra-prima, mas não deixa de transpirar vida como todos seus filmes. Destaque para a reaparição de muitas de suas antigas atrizes/obsessão.

Feliz natal
Se não houve um filme nacional que me arrebatasse completamente, a estréia de Selton Mello na direção certamente surpreendeu e sinaliza uma carreira promissora. Algumas pontas ficaram soltas, mas a sequência dentro da festa de natal da família é uma das mais intensas que vi no cinema.


A teta assustada
Há um virtuosismo que deu margem à muitos críticos tacharem o filme como ''feito para festival'', porém a maestria na direção de som e mis en scène foram o que me causou mais impacto nesse ano. A maneira como a diretora coloca os elementos e cena exploram de tal forma a espacialidade do ambiente que isso só já garantiria um bom filme, mas não se trata apenas disso.

O homem que engarrafava nuvens
Em um ano de poucos filmes nacionais que me chamaram atenção, dois documentários merecem destaque. O filme sobre Humberto Teixeira, o parceiro esquecido de Luiz Gonzaga mergulha no esquema do documentário tradicional retirando o melhor que este tem a oferecer. Na cena em que Denise Dummont, sua filha, reencontra a mãe que a abandonou quando criança, o respeito e a exposição dos sentimentos atingem raro equilíbrio em situação tão delicada.

Moscou
Apostando na direção oposta do filme de Lírio Ferreira, Eduardo Coutinho radicaliza a experiência de filmar a performance de seus personagens ao documentar o processo de criação de uma peça. Que será encenada, detalhe, apenas para a própria câmera. Mentira e verdade deixam de existir para afirmar mais uma vez que no filme o que existe é apenas a cena.

As praias de Agnès
A vinda de Agnès Varda à Fortaleza trouxe essa pequena jóia junto com ela. Contar sua vida a partir das coisas que ama e que lhe interessam muito mais do que tentar organizá-la faz com que nos misturemos não só com os acontecimentos de sua vida, mas no seu mundo e na sua memória. Aos 80 anos Agnès está mais instingante e viva do que nunca, assim como seu cinema. No caso da cineasta, mais que nunca nesse filme, uma coisa só.