fim de mundo com lan-house

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Los peores del año

Em vez de fazer uma lista de melhores do ano, resolvi tentar fazer o exercício contrário: elencar os piores filmes que vi nos últimos doze meses, os quais normalmente não me dão a menor vontade de escrever sobre, mas que talvez mereçam uma espinafração justo pra tentar separar o joio do trigo.
Na tentativa de lembras de tais filmes, os que me vieram mais forte foram os filmes nacionais, reflexo talvez da safra fraquíssima que tivemos nesse ano (pelo menos das coisas que chegaram até Fortaleza). Separado especialmente para vocês, três das piores coisas que aconteceram no cinema nacional no ano:


À deriva
O enredo do filme de Heitor Dhalia tem uma premissa praticamente igual ao de Pauline à la plage, de um dos meus diretores preferidos, Eric Rohmer: jovem vai passar temporada na praia junto com a família, quando acaba descobrindo a complicação da vida dos adultos enquanto enquanto tenta administrar as consequências de se apaixonar pela primeira vez. E o resultado não poderia ser mais diferente. O filme de Rohmer traça um retrato vivo de uma jovem em vertiginosa transformação, enquanto Dhalia consegue no máximo exacerbar o que essa situação e esse estado podem ter de dramáticos. Fotografia, trilha sonora e recursos dramáticos só fazem exarcebar o drama e pouco acrescentam à própria trama.

Do começo ao fim
Praticamente uma unanimidade(negativa) crítica, o filme de Aloíso Abranches sobre um casal de meio-irmãos que têm um relacionamento homossexual parte de uma prerrogativa polêmica para sair pedindo desculpas a torto e a direito. Mata os pais para evitar qualquer tipo de conflito, faz o amor dos dois parecer a coisa mais importante do mundo e esquece de fazer que o mundo realmente exista para os dois namorados. Na vida de Tontom e seu irmão, é só alegria como em um comercial de margarina. Infelizmente, porém, o filme não tem apenas 30s.

Garapa

José Padilha resolveu fazer um filme sobre a fome ''do ponto de vista de quem vive a situação'', buscando o choque e a exposição da dor alheia, mas sem conseguir articular nada além de puro voyerismo pretensamente engajado. É como se ver e condoer-se com a situação fosse o suficiente para sanar o peso na consciência dos espectadores. Reverter a renda do filme para as famílias retratadas também aparenta ser mais um golpe de publicidade, visto que o filme teve circulação restritíssima. Melhor seria doar a renda de seu próximo filme, Tropa de Elite 2, para alguma instituição de caridade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

8 perguntas para Alan Santiago


Alan Santiago é um jovem estranho. Aos 19 anos ganhou o edital da Secult de literatura para publicação de um livro, sua primeira produção, A Lua de Ur num Prato de Terra, que só recentemente chegou as livrarias da cidade. No dia 7 de julho, no pátio anexo do Theatro José de Alencar, figuras como Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro estavam lá prestigiando nosso jovem escritor, hoje aos 21 anos de idade, prestes a se formar e trabalhando no jornal O Povo como estagiário do Núcleo de Cultura e Entretenimento.


Alan se fazendo a fatídica pergunta: porque escritor só tira foto com livros?

O conheci há bastante tempo. Para ser sincero, somos colegas de turma de faculdade, mas na verdade nos conhecemos um pouco antes de pisarmos na UFC: graças à internet, começamos a nos comunicar muito antes do início das aulas. Nessa época, li muitos dos contos que hoje se encontram no livro. Lembro que havia quase um conto novo por semana para ler em seu blog, frequência que era quase a mesma com que eu produzia ainda alguma coisa. Mas talvez já naqueles dias, mesmo sendo muito fácil dizer isso a essa altura, eu já soubesse que ele provavelmente iria mais longe dentre todos nós. Não falo por ter ganho o edital ou lançado o livro, mas pela simples e fulminante paixão necessária para montar e acreditar em um livro próprio.

Paixão essa, aliás, que pode ser sentida nos contos de A Lua de Ur: tanto em sua escrita galopante e ausência de fôlego típica dos amantes, ao próprio enredo onde é possível sentir o sangue escorrer das mais incautas frestas dos relacionamentos e do cotidiano.

Resolvi fazer uma experiência notion less e, pela primeira vez, entrevistar um amigo, e posto aqui o resultado dessa entrépida aventura, que planejo repetir mais vezes. Por isso, amigos, lancem livros(filmes, peças e exposições também estão valendo)!

*O negrito sou eu. O normal é o Alan.

Copiando a pergunta para a qual nunca fiquei sabendo da resposta, de um veículo bahiano que não lembro agora: quem neste mundo de deus botou a literatura na sua cabeça? Foi sua tia que lhe deu a máquina de escrever? Ou começou muito antes?

Minha tia tinha duas máquinas de escrever. Uma pequena, azul, portátil, com tinta preta e às vezes vermelha, que ela guardava numa maleta de formato estranho com aba de plástico para carregar. A outra era elétrica – coisa que no início dos anos 1990 era a consubstanciação da modernidade, mas que ainda se tremia quando ligada. Mesmo assim não era preciso quase nem fazer força para digitar. Foram nessas duas máquinas que escrevi meus primeiros contos, na grande casa da família, onde meu pai mora solitário ainda hoje. Mas, se eu for pensar bem, nunca tive nenhum incentivo formal. Meu pai não me ensinou, usando o tabuleiro de xadrez, os paradoxos de Zenon de Eléia como fez o pai do Borges quando ele tinha quatro anos de idade. Lá em casa nunca teve uma biblioteca vasta – embora sempre tenha visto minha mãe lendo. Meus passeios não eram na livraria, nem meus brinquedos eram livros. Sempre fui muito solitário. Isso deve ter sido um motivo, quem sabe. Não posso dizer ao certo, mas o fato é que comecei a ler e escrever ainda em tenra idade, ficções de suspense, de crimes inexplicáveis, aventuras. É uma biografia que, diferente das histórias que tento contar, não tem muitos acontecimentos.

Olhando para o lado

Quem primeiro te impressionou? Garcia Márquez? Agatha Christie? E quem ainda te impressiona?

Primeiro foi, sem dúvidas, os livros infanto-juvenis do Marcos Rey, na Coleção Vagalume. Essa coleção formou gerações de leitores nas décadas de 1980 e 1990. Depois vieram os crimes aparentemente insolúveis de Agatha Christie. Pouco mais tarde, veio Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Gabriel Garcia Márquez e assim começaram minhas leituras mais sérias. Acredito que todas as literaturas que são de verdade conseguem continuar impressionando e incomodando mesmo muito tempo após serem lidas. Não é diferente com Márquez, Graciliano...

Alguém que você gostava muito hoje você vê com outros olhos? Aliás, creio que isso é algo que sempre acontece... talvez seria melhor perguntar: o que na literatura você foi descobrindo que podia parecer legal, mas nem era? Em relação a recursos, temas, etc.

Pensei, por um tempo, que o ser humano só poderia estar nu, revelado, na arte, através da literatura, se fosse por meio dos fluxos da consciência. Só assim alguém estaria diante do que realmente é um homem e como ele organiza seus processos mentais. Me enganei. E de maneira retumbante. Trata-se apenas de um dos recursos possíveis para tentar desvendar a vida. A literatura lhe oferece outros tantos, porque o mundo oferece igualmente tantas possibilidades quanto sejam os homens e suas formas de se relacionar, construir significado para o mundo. É evidente que essa descoberta me fez enxergar não a literatura, mas as literaturas. A narrativa, a capacidade de elaborar histórias as mais mirabolantes, também é legítima nessa busca eterna empreendida pelos escritores de todas as épocas e todas as localidades pela essência do ser humano. Estão aí Borges, Cortázar, Roberto Bolaño, Italo Calvino, Sahrazad, José J. Veiga, Pirandello, Guimarães Rosa e tantos e tantos outros que se acercaram de formas variadas de narrar e ao mesmo tempo refletir sobre a vida. Porque, afinal, escrever é tentar captar e sedimentar algo que é absolutamente fugidio, que é nossa essência.

Tentando explicar coisas inexplicáveis

Você acaba de lançar A Lua de Ur em um Prato de Terra, um livro de contos. Para um escritor, o que significa lançar o seu primeiro livro?


Rilke escreveu um livro que não apenas quem tem pretensões literárias, mas todo ser humano deveria ler. Chama-se Cartas a um Jovem Poeta, onde ele propõe, ao escritor em princípio de carreira, que se pergunte: Eu posso viver sem escrever? Se a resposta for afirmativa, sim, eu posso viver sem escrever, então, desista. Não continue. Caso contrário, não apenas persista como oriente sua vida nesse sentido. Esse livro, que tem o sabor, o cheiro e a ansiedade dos inícios, é essa tentativa de orientar minha vida para a literatura, que precisa de você inteiro, sem concessões. Mas é um primeiro passo rumo a algo que ainda não sei bem o que é.

Publicar um livro provavelmente muda a maneira como as pessoas passam a te ver. Já vi gente que sequer sabia antes que você escrevia, chamando você agora de “escritor”. E quanto a você, muda a maneira como você se vê? Alguma coisa se transforma?

Não. Continuo o mesmo inseguro e esperançoso de sempre, mas dessa vez com um livro a tira colo. Não acredito que vá mudar muita coisa. A não ser pelo fato de que a literatura vai ganhando cada vez mais espaço na vida, como ela merece e como parece ser a via natural das coisas. Mas isso é um caminho até pretendido.
Lançar um primeiro livro é também motivo de insegurança.


O que te embaraça em A Lua de Ur?


O livro é instável, porque provém de momentos diferentes da minha vida. É, antes de tudo, ainda uma tentativa de encontrar uma voz própria, que me seja única e reconhecível. Talvez não tenha conseguido nesse, mas haverá os próximos – como diz Calvino na boca do escritor Silas Flannery, em Se um Viajante numa Noite de Inverno: se penso que estou escrevendo apenas um livro, me inquieto; ao pensar que escrevo uma biblioteca inteira, me aquieto, porque o que não conseguiu ser esgotado em um volume pode vir a ser em outro. Estou tentando escrever uma biblioteca inteira, resumidas em não tantos volumes assim.

Lançamentos normalmente são muito chatos. Eu digo pelo menos para quem vai, se não estiver resguardado de muitos amigos, porque acaba sendo sempre uma reunião muito pessoal(de grupos), por mais cheia que esteja. E pra quem faz o lançamento em si, como é?

Lançamento é coisa chata. Não dá pra conversar com ninguém direito. Afora isso, para mim, ainda há o fato de não conseguir lidar muito bem com publicidade em torno da minha figura. Particularmente no caso de um lançamento em que o que está exposto ali não é a qualidade literária do sujeito – já que o livro ainda ninguém leu – mas o próprio escritor. Entretanto, é a via de se chegar aos leitores, o objetivo final. Mas minha preocupação é com a literatura. Livros efetivamente bons acabam sendo encontrados por um, dois ou cem leitores – independente da divulgação que se tenha feito nele. Carlos Nóbrega, um excelente poeta cearense que não se divulga e praticamente não há indicação de quem ele é em seus livros, é prova viva. A literatura dele vai sobreviver apesar da vida misteriosa do autor, porque tem consistência. A boa literatura sempre viverá.


A Lua de Ur num Prato de Terra - de Alan Santiago (Contos) . Editora 7 Letras. Internet: Livraria Travessa e Livraria Cultura. Ao vivo: Livraria Lua Nova - Av. 13 Maio, 2861 - Benfica, Fortaleza - CE. Telefone: 3214 5488‎.